Arquivo da categoria: Mulheres pelo mundo

Al Jazeera denuncia: estupros na Líbia são armas de guerra

Há alguns dias correu a notícia de que uma mulher na Líbia, Imam Al-Obeidi, invadiu um hotel onde se hospedam estrangeiros para dizer à imprensa mundial que foi torturada e estuprada por militares do governo de Muammar Kadhafi. Já se disse desde então que ela é louca, prostituta e coisas do gênero. Mas a tv AL Jazzera fez uma reportagem em que denuncia que a prática de estupro é “arma de guerra” usada contra as mulheres na Líbia. A reportagem diz que viagras e camisinhas são distribuídos para os oficiais do exécito para estimular os estupros.

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General admite testes de virgindade no Egito

A CNN publicou ontem a declaração um general do exército egípcio, que admitiu que foram feitos testes de virgindade em mulheres presas  em um evento de protesto. O motivo: “Nós não queríamos que elas dissessem que nós as abusamos ou violentamos, então nós queríamos provar que elas para começar não eram virgens”, disse ele. “Nenhuma delas era virgem”. (Seguindo esse raciocínio a gente entenderia que quem não é virgem pode ser estruprada sem maiores problemas?) O evento aconteceu em março,  um mês depois da saída do presidente Mubarak – em seguida o exército egípcio tomou o poder aguardando as próximas eleições. Pelo menos 17 mulheres presas passaram pelo teste de virgindade.

 

Mulheres desafiam os costumes para dirigir na Arábia Saudita

Um protesto de mulheres na Arábia Saudita vai exigir no dia 17 de junho um direito que pra nós soa até bem bizarro: elas querem poder dirigir.  Algumas mulheres se juntaram e lançaram no Facebook e no Twiter a campanha “I will drive starting June 17” (Eu vou dirigir a partir do dia 17 de junho). Diz a Folha que a página do evento chegou a ter 6 mil membros. Mas agora não consigo encontrá-la no Facebook, parece ter saído do ar. Algumas outras páginas com esse nome aparecem, mas com poucos membros. É emocionante. Tomara que dê certo e que as mulheres sauditas lutem cada vez mais por seus direitos.

 Achei esse vídeo falando do assunto, da CNN:

O manifesto das mulheres diz o seguinte (foi escrito em árabe, traduzi do inglês):

“Nós procuramos por leis que proibem as mulheres na Arábia Saudita de exercerem seu direito de dirigir seu próprio veículo mas não encontramos nada que aponte para tal [proibição] nas leis de tráfego sauditas. Assim, o que nós vamos fazer não pode ser considerado uma violação da lei. Então nós decidimos que começando na sexta-feira, dia 15 do Rajab, 1432, que corresponde ao dia 17 de junho de 2011:

– Toda mulher que possua uma carteira de motorista internacional ou uma de outro país vai começar a dirigir seu próprio carro seja para chegar ao seu local de trabalho, deixar seus filhos na escola ou atender suas necessidades diárias.
– Nós vamos tirar fotos e filmar a nós próprias dirigindo nosso carros e postar na nossa página do Facebook para apoiar nossa causa: “eu vou dirigir a partir do dia 17 de junho”
– Nós vamos aderir ao código de vestimenta (hijab) enquanto dirigimos.
– Nós vamos obedecer as leis do trânsito e não vamos desafiar as autoridades se formos paradas para questionamentos.
– Se formos obrigadas a parar, vamos firmemente demandar ser informadas sobre quais leis estão sendo violadas. Até agora não há uma lei de trânsito que proíba mulheres de dirigirem seu próprio veículo.
– Nós não temos objetivos destrutivos e não vamos nos reunir ou protestar, nem vamos levantar slogans. Nós não temos líderes nem conspiradores internacionais. Nós somos patriotas e amamos esse país e não vamos aceitar que isso afete sua segurança. O que está envolvido [nesse assunto] é que nós vamos começar a exercer nossos direitos legítimos.
= Nós não vamos parar de exercer esse direito até que encontrem uma solução para esse caso. Nós falamos em diversas ocasições e ninguém nos ouviu. A hora das soluções chegou. Nós queremos escolas de direção para mulheres. Nós queremos que as motoristas sauditas tenham carteira de motorista como em todos os outros países do mundo. Nós queremos viver como cidadãs de maneira completa sem a humilhação e a degradação a que nós somos [atualmente] sujeitas todos os dias por causa da nossa dependência de um motorista.
– Nós vamos lançar uma campanha voluntária para oferecer aulas de motorista grátis para mulheres começando na data que esse anúncio está sendo feito e gostaríamos que todos nos apoiassem

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Mãe do botox perde a guarda da filha

A mãe que injetava botox no rosto da filha de 8 anos que eu falei aqui perdeu a guarda da filha hoje nos Estados Unidos. Disseram os médicos que é muito incomum esse tipo de aplicação em crianças. Disseram os responsáveis pelos concursos de beleza infantil que isso também é muito incomum nos concursos. Sei não, hein?

Homens solteiros sobrando na China

         O blog da Forbes publicou ontem um post de Kevin Lee que fala da questão dos homens solteiros na China. No país incentiva-se os casais a terem só um filho – há uma dicussão se é por causa disso ou por outras questões culturais (veja esse outro post do blog do NEMGE), mas o infanticídio e o abandono de crianças mulheres é muito comum no país. O resultado é que em 2030 se prevê que 25% ou 1/4 dos homens chineses ficará sem se casar por absoluta falta de mulher no mercado.
         Lee levanta algumas possilidades que podem ser desencadeadas a partir daí:
Os homens se casarão com mulheres cada vez mais jovens – Lee diz que já existe uma tendência chinesa de os homens só se casarem quando têm dinheiro para sustentar uma família. Há casais que têm 10, 20 ou até 30 anos de diferença entre si. Então quem tem dinheiro, no futuro, poderá tentar achar esposas entre as gerações mais novas, caso não encontre uma entre as pessoas da sua própria idade.
Homossexualidade – ele levanta uma questão importante: será que num país com um problema de gênero tão grave se formará uma maior comunidade de homossexuais? Há dúvidas entre as razões que fazem um cara ser gay- se é uma questão biológica ou social. Se o social tem impacto,  a bandeira GBLT pode ser fincada na China em breve.
Frustração e desordem – Lee sugere também a possíblidade de o país viver com altos índices de frustração masculina, o que pode abalar estabilidade social. Em um país em que a família é super importante, como será a reação dos jovens que não conseguirem ter uma?

Sobre as mulheres do Congo

 

Dabora e algumas das mulheres que ajudou pelo MSF

Minha amiga Vanessa Rossi me indicou a entrevista que Eliane Brum para a révista Época com Debora Noal, brasileira que faz parte dos Médicos Sem Fronteiras. Ela deu um chocante depoimento sobre a situação que encontrou no Congo. Fala especialmente de mulheres que foram estupradas coletivamente, por 30 ou 40 homens, sem nem entender porque estavam sendo atacadas. Fala de padrões de beleza, do sofrimento de mulheres que não podem se dar ao luxo de sentir prazer nas relações sexuais para não serem confundidas com prostituras. A entrevista toda é tocante, separei aqui só o trecho que fala das mulheres:

Me dá um exemplo concreto…
Debora – Vou dar o exemplo da dona Marie, do Congo. O LRA (Lord’s Resistance Army – Exército de Resistência do Senhor), que é um grupo de rebeldes do governo ugandês que promove vários ataques na fronteira entre o Burundi e o Congo, ataca pessoas como a dona Marie. Essas pessoas atacadas não falam nem a mesma língua, não sabem por que o exército e os rebeldes ugandenses atacam suas comunidades. Lá não existe televisão, não existe internet, não existe rádio, então elas não têm noção de que existe um conflito armado, muito menos que elas estão sendo alvos de um conflito armado. A cidade, Niangara, é considerada o coração da África. Tem inclusive uma pilastra que diz: “Você chegou ao coração da África”. 

Deve ter sido muito difícil chegar até lá no meio de um conflito…
Debora –
Muito difícil. A gente desceu em Isiro com um avião pequeno e depois fez oito, nove horas naquelas camionetes tracionadas para chegar a esse lugar. Tudo poderia acontecer no meio do caminho, tudo. Nós éramos a primeira equipe a tentar chegar lá para ver qual era a real situação. A única coisa que a gente sabia é que as comunidades estavam sendo atacadas e que eram ataques muito cruéis. Os rebeldes chegavam nessas comunidades próximas a Niangara, onde as pessoas moram em casas de barro com palha. Os rebeldes jogam fogo nas casas durante a noite e, quando as pessoas estão saindo, eles atiram com aquelas Kalashnikov, que são metralhadoras que não travam. Então eles podem matar muitas pessoas ao mesmo tempo. Alguns morrem queimados, outros morrem de tiros, outros morrem degolados. Outros ainda morrem de hemorragia, porque eles cortam as cartilagens com faca: as orelhas, a ponta do nariz, os lábios. E muitas meninas e mulheres morrem de estupro, de hemorragia após o estupro. Porque os estupros são coletivos. De 30 a 40 homens estupram uma única mulher. Eles fazem os maridos e os filhos segurarem a mulher enquanto os homens estupram em massa. São requintes de crueldade impressionantes. 

E foi isso o que aconteceu com Marie?
Debora –
Essa mamãe Marie me tocou muito – eu digo mamãe porque lá todo mundo se chama de mamãe, todo mundo que é mulher se chama mamãe alguma coisa, e homem se chama papai alguma coisa. É um título de respeito. Fazia 24 horas que a gente tinha chegado quando mamãe Marie apareceu. E eu lembro que ela chegou desesperada. Uma mulher muito magra, alta, com a roupa completamente rasgada – porque eles estão sempre com um pedaço de pano amarrado nas pernas para fazer uma saia, um outro amarrado em cima para fazer uma blusa, e normalmente um terceiro para amarrar um bebê. Todos da mesma cor. E ela chegou muito rasgada. E ela disse: “Eu não tenho nenhum motivo para viver, mas me disseram que aqui tinha uma branca que ajudava as pessoas”. Eu falei: “Bom, vamos ver, né? De que ajuda você precisa?”. Ela morava com seis filhos e o marido. Quando um dos filhos estava saindo do le marché (pequenas feiras no meio da rua), alguém gritou: “Corre, porque acabaram de matar teu marido na estrada”. E ela disse: “Como assim, mataram meu marido?”. E disseram: “Os LRA encontraram teu marido na estrada e mataram. Corre do povoado porque eles vão matar todo mundo”. Ela falou: “Mas eu tenho seis filhos dentro de casa…” E aí ela voltou para a sua comunidade, com seu bebezinho amarrado na cintura, e pegou os filhos. E saiu correndo para o meio da floresta, que é mata fechada. Só que no meio do caminho ela percebeu que estava com cinco crianças. Faltava a de dois aninhos. Ela deixou os filhos na floresta e correu de volta para casa com seu bebê amarradinho. E viu a pequenininha dentro de casa, queimando, junto com todas as coisas. Desesperada ela correu para buscar os outros que estavam no meio da floresta e caminhou durante muitos dias dentro da mata fechada com as cinco crianças, sabendo que o marido já tinha morrido, para conseguir ajuda. E aí conseguiu chegar a outro povoado, que era onde morava a mãe dela. E, alguns dias depois, o LRA alcançou essa comunidade e ela sofreu um estupro coletivo. Dezenas de homens a estupraram. E depois mataram dois dos filhos dela. Mamãe Marie seguiu fugindo, mas a cada ataque foi diminuindo o número de filhos dela. Quando ela chegou a Niangara ela tinha apenas um bebê, que era o que estava amarrado na cintura. E ela disse: “Eu não tenho nenhuma razão para viver”. 

O que aconteceu com os outros filhos dela?
Debora –
Foram mortos e uma menina sequestrada. É muito comum sequestrarem meninos e meninas. As meninas são escravas sexuais. Durante todo o tempo em que estão sequestradas elas se deslocam na floresta junto com os guerrilheiros. E os meninos são sequestrados para carregar as armas e os roubos em grandes balaios sobre a cabeça. Os guerrilheiros saqueiam as comunidades, queimam as casas, atiram nas pessoas. Isto tudo é uma forma de demonstrar poder diante do governo congolês, que se posicionou contra essa força armada ugandesa. Porque até então os congoleses não tinham sido alvos dos guerrilheiros ugandenses. Mas a partir do momento em que o governo congolês se posicionou contra esse tipo de conflito, eles começaram a atacar as comunidades. Mas não existe informação. Então as pessoas são atacadas sem saber por quê. Logo que eu cheguei, eu não conseguia entender. Como assim? Foi atacada, mas por quê? Mamãe Marie dizia: “Não sei, não sei quem são essas pessoas, eu não sei por que fui atacada, não sei por que eles mataram meu marido, por que mataram meus filhos. Só sei que eu não tenho nenhuma razão para estar viva. Eu não tenho nada. Eu tenho um bebê. E vou cuidar como desse bebê se eu não tenho como trabalhar?”. É uma comunidade que vive de trocas. Não há dinheiro. Então você troca serviços para poder viver. Mas você vai trocar o que quando você não tem nada? Eles vivem de plantar coisas na floresta. Desmatam uma parte da floresta, plantam e aí aquilo ali serve de troca no mercado. Só que quando você não tem mais sua terra, você vai fazer o quê? E eu lembro que no dia em que a encontrei, pensei: como eu posso ajudar uma pessoa dessas? Ela perdeu tudo… E eu era a única psicóloga nesse lugar, a única. Não tinha nem mesmo um psicólogo nacional, ainda não tinha tradutor, eu tinha acabado de chegar à cidade e, se você me perguntar como fiz o atendimento, até hoje eu não me lembro, porque eu não falo a língua dessa mulher. E eu escutei toda essa história… 

Em que língua?
Debora –
Ela falava “lingala”. 

E como você a escutou em “lingala”?
Debora –
Você começa a se dar conta que a consigna do sofrimento não precisa de muitas palavras. Até porque a pessoa está em estado de choque, então ela tem muita dificuldade de se expressar. Normalmente ela expressa com o corpo, com o olhar, com a forma de levantar o pescoço, a forma de gesticular. E eu me lembro de ter pedido ajuda para escrever a história dela, porque eu precisava descrever para poder organizar algumas coisas mais práticas. Onde ela vai dormir agora? O que ela pode comer? Onde ela pode se vestir? Nesse lugar a postura e a forma de se vestir são muito importantes. Para você ter uma ideia, as pessoas entram no rio antes de irem para o hospital: lavam todas as roupas, colocam na margem do outro lado e ficam nuas dentro do rio esperando secar, porque só têm uma peça de roupa. Quando as roupas secam, elas saem do rio, vestem e só então vão ao hospital. Mesmo depois de um estupro, depois de terem sido baleadas, depois de terem sido mutiladas. Elas têm uma preocupação em chegar limpas e a vestimenta é importante. 

E como você fez para ajudar uma mulher que tinha vivido isso?
Debora –
Eu perguntei a ela o que a fazia feliz antes disso tudo acontecer. Se ela lembrava a última vez em que tinha sido feliz. E ela disse: “Hoje eu não lembro, mas eu vou tentar me lembrar”. E eu falei: então, Marie, você pode voltar amanhã? E ela disse que podia. 

E ela voltou?
Debora –
Depois disso, eu fui encontrar outras mulheres da comunidade. Contei a história dela. E as mulheres a acolheram dentro de casa. São pessoas que moram em quatro, cinco, num espaço do tamanho do meu banheiro. Não tem divisória, não tem cozinha, é fogo de chão do lado de fora da casa, faz muito calor. E as mulheres encontraram um lugar para ela dentro de casa. Do tipo: “Você é bem recebida dentro da nossa comunidade”. E ela ficou muito surpresa. Ela nunca vira essas pessoas na vida e essas pessoas estavam dispostas a acolhê-la. E no outro dia ela voltou e me agradeceu muito. Ela disse: “Eu me lembrei da última vez em que eu fui feliz”. E quando foi, Marie? Ela falou: “Foi quando eu dancei”. 

Nossa…
Debora –
E aquilo ficou… dançou, tá bom. Eu fiquei pensando em como montar um grupo terapêutico, porque a Marie foi só a primeira. Como ela, nessa missão, houve mais de 200 mulheres que eu atendi, sozinha, num espaço de um mês e meio, dois meses. Mulheres e meninas violentadas. Meninas de dois anos de idade, de três anos de idade, de 10, 15, que eram violentadas, estupradas, mutiladas. E eu lembro que o grupo terapêutico nessa comunidade foi de dança. Elas dançavam e com a dança elas contavam a sua história. Era muito bonito. Eu não entendia nada da música, mas eu sabia que a música tinha um conteúdo muito triste. Elas dançavam sempre numa roda e junto com a música cada uma contava a sua história. E choravam e se abraçavam e continuavam contando sua história e dançando. Para mim, cada dia era um ensinamento diferente. Ok, o sofrimento existe, a dor é frequente, a dor é permanente, mas quando a gente está no coletivo isso tudo é dividido. E a dança mostrava isso: a gente não pode parar. E velhinhas de 70, 80 anos, dançavam e saltavam indo até o chão e levantando de novo, porque as danças são muito expressivas. Nessa época, eu já tinha uma tradutora. Ela falou: “Vou te contar uma das músicas”. E era assim: “Quando eu cheguei aqui razão nenhuma eu tinha para viver, agora eu tenho não só uma razão, mas tenho uma família de novo. Tudo eu perdi, mas se Deus quis que assim eu tivesse uma comunidade e uma nova família, então eu fui aceita, e assim eu aceito. E assim agora tenho uma nova vida, uma nova razão para viver”. 

É terrível e lindo ao mesmo tempo. Como você sai de uma missão como essa? Como você vive depois de ter vivido isso?
Debora –
Eu saí arrasada. Caramba, não fiz nada por essas pessoas. Tinha muita coisa que precisava ter sido feita. Elas precisam de paz. Não existe saúde, não existe felicidade num lugar onde você não tem paz, o princípio básico da humanidade. Na época eu trabalhava com a seção belga. Então, cheguei à Bélgica muito mal. Fui fazer meu relatório e contei sobre o número de pessoas que estavam sendo violentadas. Disse que a gente precisava fazer alguma coisa. E falei: “Eu estou mal porque não me importo de passar a minha vida inteira atendendo essas pessoas em forte sofrimento, mas eu me importo de saber que amanhã, depois de amanhã, e depois e depois e depois elas vão continuar sofrendo esse mesmo tipo de violência se isso não parar. Agora a primeira necessidade é uma equipe de paz. Como fazer isso?”. 

E como fazer?
Debora –
Nós temos jornalistas dentro da organização. Temos um compromisso com a denúncia quando existe qualquer tipo de ferimento aos Direitos Humanos. Me encaminharam para o serviço de comunicação e falaram: “A gente vai fazer alguma coisa”. Eu saí de lá, e os jornalistas foram. E fizeram reportagens e documentários. Divulgaram. Um ano e pouco depois, em 2010, eu voltei para lá. Normalmente depois de um estupro, no Congo, uma mulher não pode mais casar. Não tem mais o direito de casar porque ela não é mais virgem e porque ela já teve a sua primeira experiência. Então ela é alguém que está “suja”. E um dos trabalhos era mostrar para os homens e a comunidade que não, ela não estava suja. E que era preciso rever algumas estruturas da cultura. E, quando voltei, eu perguntei: “Onde está o meu grupo?”. E a resposta foi: “Todas casaram”. E elas vinham à minha sala de consulta mostrar seus bebezinhos, apresentar o marido, os sogros. Vinham com a família inteira. Eu falei: “Gente, não acredito!”. 

Reinventaram a vida….
Debora –
Literalmente. Reinventaram uma forma de viver. E elas estavam felizes. E eu fiquei muito feliz. 

Essa missão do Congo foi a mais dura para você?
Debora –
Sim, no sentido de que nós éramos a única organização que estava lá. O medo era perene a noite inteira. Eu tinha muito receio, porque eu via as mulheres, a forma como eram cometidos os estupros. E eu era a única mulher nessa missão. Eram 14 homens e eu. Então eu sabia que, se os rebeldes ugandenses entrassem na nossa casa, o desastre e a violência que eu atendi o dia inteiro aconteceriam comigo. Então a dor era constante. Foi um mês e meio, quase dois meses, de dor 24 horas. De dia, o dia inteiro, enquanto existia luz, a dor era compartilhada, minha com elas. E durante a noite, o medo – aí o medo era só meu. Quase a noite inteira sem dormir, pensando. Cada folha que mexia do lado de fora do quarto, eu pensava: podem ser eles. Porque a gente não sabia até onde os ataques poderiam chegar. Um dos ataques chegou a sete quilômetros de onde a gente estava. Muito perto mesmo. Barulho de tiros, as pessoas gritando, fogo, então a gente sabia que, se chegasse à comunidade, nós também seríamos alvo.

E como era esse medo?
Debora –
Bom, luz a gente já não tinha. A gente usa sempre lanternas na cabeça para se locomover, para ir à latrina, para qualquer coisa. E o meu medo era de tudo. Medo de dormir profundamente, porque sabia que, se eu dormisse um sono mais profundo, perderia a possibilidade de me proteger, se houvesse necessidade de fugir. Ao mesmo tempo, o medo de…ok, mas vou fugir para que lado? Tinha medo de sofrer uma violência sexual, que é uma coisa que me toca muito. Desde que me formei eu trabalho com violência sexual. Aqui, inclusive, em Sergipe. Foi um dos motivos de eles terem me chamado para a organização – por ter uma expertise de trabalho com mulheres violentadas. E é uma coisa que sempre me tocou muito porque, quando você escuta o sofrimento de alguém que vivenciou uma violência sexual, é como se você compartilhasse a história dessa pessoa, e você acaba vivenciando um pouco da história dela. E as histórias são muito doídas. Alguém que entra dentro de você é alguém que te invade, te dilacera. Como elas mesmas dizem: “O meu braço, você pode quebrar, ele vai se reconstituir. Mas por você ter entrado dentro de mim, eu nunca vou poder te tirar”. E essa é uma dor muito forte. Então, o meu receio também era de estupro. Inclusive, pelos estupros serem coletivos, as mulheres têm fístulas depois. O canal da vagina e do ânus viram um canal só. Então você não consegue mais conter nem sua própria urina nem suas fezes. Você está andando na rua e sente que sua urina está saindo. É muito triste. E há ainda a vergonha de ir a um espaço público, por exemplo. Elas vão ao hospital e não querem sentar na cadeira. Você diz para elas: pode sentar! “Mas eu não quero…” Até eu me dar conta de que elas não se sentavam porque tinham medo de fazer xixi ou de fazer cocô em cima da cadeira, porque elas não conseguem sentir quando vai sair… Uma delas me contou que ficam de um a dois dias sem comer nem beber nada antes de ir a uma consulta, para não fazer xixi nem cocô dentro do hospital, ou dentro da estrutura de saúde. Você imagina o sofrimento de alguém que, a cada vez que tem de ir a um espaço coletivo não pode comer nem beber um ou dois dias antes? É muito sofrimento. Mas é interessante, porque também tem beleza nesse lugar, e também tem riso, também tem desejo de vida. É um negócio impressionante. A missão tem de ser feita com todos os sentidos: o que você escuta, o que você vê, o que você toca, o que você sente, o que você cheira… 
 (…)

Fiquei curiosa para visualizar mamãe Marie. Como ela é?
Debora –
É uma mulher bem alta, magra, muito magra. Uma mulher que chama a atenção pelas cicatrizes no rosto. Ela é de uma tribo onde as mulheres fazem cortes muito bonitos no rosto quando ainda são jovens. A estética desse lugar é uma estética muito interessante. Nada a ver com a estética que a gente valoriza no mundo ocidental, mas uma estética muito forte, onde as marcas do rosto dizem de onde você vem e qual é a sua história. Como tatuagens. São cicatrizes que vão contando a história dessa mulher. Nesse lugar, as mulheres ou raspam o cabelo ou têm o cabelo muito comprido. Não existe o meio termo. Ou elas têm tranças enormes, que é um grande símbolo de beleza. Ou são mais velhas e têm o cabelo raspado, o que também é um símbolo de beleza. 

E nos outros lugares onde você foi, como era vivida a questão da beleza? O que era o belo?
Debora –
Em Masisi (Congo), as pessoas têm os dentes bem separados. E elas serram para ficar mais separados. Isso, esteticamente, é muito bonito. Eu sempre pergunto: “O que é um homem muito bonito aqui? Uma mulher muito bonita?”. Eu sou muito perguntadeira. E eu me lembro de um dos psicólogos nativos me contando: “Ah, uma mulher bem bonita aqui é a minha mulher. A minha mulher é a coisa mais linda do mundo”. O nome dele era Dodô. “Ah, Dodô, e como é a sua mulher?” E ele a descreveu: “Minha mulher é bem alta, é bem gorda, ela tem os dentes bem separados, e ela tem umas tranças…” Na minha cabeça ocidental, eu fiz a imagem de uma mulher com seios grandes, bem magra, acinturada, com bunda, perna firme. E eu fui fazer uma seleção, e a mulher dele também era psicóloga e concorreu. Quando eu a vi, levei um susto. Então essa é a mulher linda dele! Era uma mulher muuuuuito grande, muuuito gorda, com os dentes muuuito separados. Uma mulher bem masculina, bem forte. Bem, mas bem gordona. Do tamanho desse sofá (de dois lugares). E eu pensei: “Essa então é a beleza”. E depois eu fui perguntando para outras pessoas no caminho o que era uma mulher bonita, quem era uma mulher para casar… Porque eles sempre diziam: “Essa é para casar, essa não é para casar”. Aí eles respondiam: “Como assim, você não sabe o que é uma mulher para casar?”. Porque quando você está dentro da sua cultura, você acha que todo mundo compartilha, né? Uma mulher para casar, naquele lugar, é uma mulher grande, forte, que consegue suportar o peso de dois bebês sobre o próprio corpo, que consegue capinar e preparar a horta e que ainda tem forças para, quando chegar em casa, arrumar as coisas. Só que eles estão falando isso não com uma conotação machista, mas com uma conotação de: “Como você não sabe? É assim”. 

Você, pequena e magra, estava completamente fora do padrão de beleza local…
Debora –
Eu sempre estou completamente por fora dessa beleza. Eu sou o lado B da beleza desse lugar… (ri). Lembro que uma vez um homem de lá até falou: “Você é tão bonita, pena que seja muito magra. E os dentes, também, são muito juntinhos…” (ri muito) Eu fico pensando que uma pessoa que não se sente bem com sua aparência só precisa rodar o mundo. Você sempre vai encontrar alguém que procura exatamente você…. e nada mais do que você mesmo. Tem gosto, cultura e estrutura para tudo nesse mundo.

E a vivência da sexualidade também deve ser muito diferente, não?
Debora –
Eu lembro que uma das aulas é sobre sexualidade. Como se desenvolve a sua sexualidade? Como casar depois de ter sido estuprada? Como ter uma relação sexual com alguém depois de ter sido violentada? E eu lembro de uma pergunta que me marcou muito, de uma mulher de uns 45, 50 anos: “Mamãe Debora, como é fazer amor com alguém com carinho?”. Você imagina alguém que é casado há muito tempo e que não sabe o que é fazer amor com alguém, ter cuidado e ser cuidada?

E o que você respondeu?
Debora –
Eu expliquei um pouco como era no mundo ocidental, que nem todos os homens são carinhosos, nem todas as mulheres são carinhosas, mas que existem, sim, estruturas de carinho, que o carinho também é uma estratégia cultural. Mas que nem todas as culturas desenvolvem esse tipo de estratégia. Essa mulher então me disse: “Se eu mostrar para ele que estou sentindo prazer, vou ser considerada uma prostituta. Será que você pode falar com meu marido para dizer a ele que isso não é coisa de prostituta?”. Posso. Pode tudo num lugar desses. Todos os tipos de intervenção são possíveis. Existem, sim, várias consignas, mas não existe um padrão que tem de ser seguido. Cada pessoa é um mundo de necessidades e um outro mundo de possibilidades. E você tem de saber que tipo de necessidades tem esse mundo e como fazer essa ponte com o mundo das estratégias de cada um.

E você falou com o marido dela?
Debora –
Falei. Foi interessantíssimo, porque os homens não falam nesse lugar, né? Cabeça baixa… ainda mais com uma mulher. Imagina um homem negro, afro, subsaariano, falando para uma mulher sobre sua vida sexual. Não sei se por sorte ou azar, nesse lugar as mulheres brancas são consideradas assexuadas. Não somos nem homens, nem mulheres. Acho que isso facilitou bastante. E eu lembro que ele disse assim: “No mundo dos brancos funciona assim?”. Eu falei: “Não no mundo de todos os brancos, mas a gente não precisa dizer que tem um mundo de branco e um mundo de negro, mas que isso pode se constituir das duas formas. Inclusive, no mundo de onde eu venho existem homens brancos e homens negros. Eu não vivo num mundo só de brancos. Vivo num mundo onde existem, sim, muitas pessoas negras, e que algumas sentem prazer, outras não sentem. Mas que isso, sim, é possível. Você não precisa ser profissional do sexo para você sentir”. E eu me lembro das perguntas dela: “Mas eu faço como?”. Porque nesse lugar é muito diferente. Os prazeres são diferentes. A forma de sentir prazer é diferente. 

E como é?
Debora
– Aqui você vai à farmácia para comprar um lubrificante para uma relação sexual. Lá é diferente. Você compra pílulas ou você usa ervas para estar ressecada na relação sexual. Então, normalmente, um presente de casamento é ou uma pílula, para você se ressecar, ou ervas para você secar sua vagina antes da relação sexual. Para que sua vagina esteja bem seca na hora de ter uma relação. Então você imagina a dor de um estupro, né? Porque a mulher obviamente já está ressecada. 

E o prazer é por estar seca?
Debora –
Não da mulher, o prazer do homem. Quando eu pergunto para elas se sentem prazer, elas dizem: “Não, sinto dor”. É uma das razões de o número de casos de DSTs (doenças sexualmente transmissíveis) ser muito alto. Elas já têm muito mais fissuras, muito mais contato de sangue, muito mais contato de secreção. Você precisa então dar algumas dicas sem interferir diretamente em uma cultura, porque esse não é o meu trabalho, nem o trabalho de ninguém, o de desconstruir uma estrutura que está dada. Mas quando uma pessoa diz: “Essa estrutura não me dá prazer, essa estrutura me machuca, essa estrutura me fere, me causa sofrimento, bom, aí minha intervenção é possível”. E funcionou. Para essa pessoa, pelo menos, funcionou. Para esse casal. 

Como você sabe que funcionou?
Debora –
Ela me disse. Bateu na janela do meu quarto e sussurrou: “Funcionou!”. (risos)

Mais sobre o esmalte rosa do menino

Engraçadíssimo um post que o site Feministing fez ainda sobre a questão do esmalte rosa no menino da campanha da J. Crew. Mostra esse vídeo fofo, de 2 minutos e meio, em que um urso polar tenta se livrar de um balde azul onde enfiou a cabeça:

Em seguida, diz o post [e eu adoro!]: “Não se preocupe, até onde eu sei esse filhote é macho, e portanto está brincando de uma maneira apropriadamente masculina ao colocar um balde azul em sua cabeça. Filhotes machos de ursos polares que brincam adoravelmente com baldes rosas ou roxos são, é claro, parte de uma vasta conspiração liberal para destruir o estilo de vida americano”