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Chapeuzinho moderna

Minha amiga Gabi, esses dias, me mostrou um ilustrador peruano incrível e engraçadíssimo, o Alberto Montt. Todo dia tem novidade  no blog dele. Achei lá uma tirinha da Chapeuzinho Vermelho (lembra que eu falei das sexualidade da Chapeuzinho em diferentes versões do conto, aqui e aqui?). Olha que boa:

Chapeuzinho vermelho e a sexualidade das meninas (2 de 2)

Faltou só dizer que existem versões realmente ousadas de Chapeuzinho Vermelho já feitas. A mais famosa é de Angela Carter, ainda à venda no Brasil no livro O Quarto do Barba-Azul. Carter faz uma leitura de Chapeuzinho nada moralista: ela dorme com o lobo porque cede aos seus próprios desejos.  Se quiser ver na tela, o filme A Companhia dos Lobos, dirigido por Neil Jordan em 1984, é uma versão de dois contos do livro.

Chapeuzinho vermelho e a sexualidade das meninas (1 de 2)

          Estreia quarta-feira uma nova versão do conto clássico Chapeuzinho Vermelho para o cinema. O filme é dirigido por Catherine Hardwicke (de Crepúsculo) e estrelado por Amanda Seyfried (de Garotas Malvadas e Mamma Mia!).

          Não achei uma única crítica positiva ao filme, o que até era de se esperar.  Mas há um ponto interessante: na livre adaptação do conto, parece que a Chapeuzinho vive um triângulo amoroso com um lenhador e um ferreiro. Pra quem não sabe ao certo da história da Chapeuzinho pode soar super “sexual, ousado e sombrio”, como eu li por aí.
         Na verdade, Hollywood está sendo é bem careta.  O conto da Chapeuzinho (que tem versões de Perrault e dos irmãos Grimm) é muito estudado por psicanalistas e um pouco por historiadores (leia aqui o texto do psicanalista Bruno Bettlelheim ou aqui o do historiador Robert Darnton, que têm pontos de vista praticamente opostos). O conto desperta interesse porque trata diretamente da sexualidade das garotas (o lobo come a menina, afinal!).
         Quem for assistir, pode fazer o exercício de tentar comparar a sexualidade no filme com uma de suas versões em conto. Essa é uma, antiga, como contada na França do século XVIII:

Certo dia, a mãe de uma menina mandou que ela levasse um pouco de pão e de leite para sua avó. Quando a menina ia caminhando pela floresta, um lobo aproximou-se e perguntou-lhe para onde se dirigia.

– Para a casa de vovó – ela respondeu.
– Por que caminho você vai, o dos alfinetes ou o das agulhas?
– O das agulhas.
Então o lobo seguiu pelo caminho dos alfinetes e chegou primeiro à casa. Matou a avó, despejou seu sangue numa garrafa e cortou sua carne em fatias, colocando tudo numa travessa. Depois, vestiu sua roupa de dormir e ficou deitado na cama, à espera.
Pam, pam.
– Entre, querida.
– Olá, vovó. Trouxe para a senhora um pouco de pão e de leite.
– Sirva-se também de alguma coisa, minha querida. Há carne o vinho na copa.
A menina comeu o que lhe era oferecido e, enquanto o fazia, um gatinho disse: “menina perdida! Comer a carne e beber o sangue de sua avó!”
Então, o lobo disse:
– Tire a roupa e deite-se na cama comigo.
– Onde ponho meu avental?
– Jogue no fogo. Você não vai precisar mais dele.
Para cada peça de roupa – corpete, saia, anágua e meias a menina fazia a mesma pergunta. E, a cada vez, o lobo respondia:
– Jogue no fogo. Você não vai precisar mais dela.
Quando a menina se deitou na cama, disse:
– Ah, vovó! Como você é peluda!
– É para me manter mais aquecida, querida.
– Ah, vovó! Que ombros largos você tem!
– É para carregar melhor a lenha, querida.
– Ah, vovó! Como são compridas as suas unhas!
– É para me coçar melhor, querida.
– Ah, vovó! Que dentes grandes você tem!
– É para comer melhor você, querida.
E ele a devorou.